Começou por ser feito, muitas vezes, à socapa e só em última instância. Quando a rádio não dispunha de um registo sonoro de determinado assunto, por não ter estado presente no local do acontecimento, “picava-se” da televisão. Mesmo assim, mandava a boa norma atribuirem-se os créditos à fonte original que transmitira o registo sonoro.
Hoje em dia, impera a lei da selva. Umas vezes atribuem-se os créditos, outras vezes não, o que acaba por iludir quem ouve sobre a original proveniência dos registos sonoros. Ademais, a concentração que originou, em algumas situações, a mesma tutela empresarial sobre rádios, televisões e jornais, acaba por servir de manto diáfano para o aligeiramento das normas éticas – se a rádio é do mesmo grupo da televisão para quê estar a atribuir os respectivos créditos? Só que, mais grave, parasitam-se muitas vezes orgãos de comunicação que estão fora do respectivo grupo, o que origina uma confusão generalizada para aqueles que se preocupam em percepcionar os legítimos créditos de cada rádio e de cada televisão.
Com o à vontade de quem parece defender o vale-tudo em termos deontológicos, ouvem-se, hoje em dia na rádio, registos sonoros de outrém como se fossem próprios ou relatos de futebol feitos no estúdio sem a menção de que a narração é realizada a partir das imagens televisivas e não no local do acontecimento.
A mais recente “moda” é o convite sistemático (e o mais das vezes não remunerado, segundo presumo) a jornalistas da imprensa para preencherem os espaços de comentário radiofónico numa assunção clara de que a rádio dificilmente gera, por si só, receitas suficientes que lhe permitam uma efectiva autonomia informativa.
Perante este quadro, não é dificil de concluir que a rádio se põe a jeito para aspirar à sua própria irrelevância, como sugeria o artigo de ECT, relativamente à programação radiofónica, e contra o qual alguns se escandalizaram aqui, aqui ou aqui.
No que concerne à informação, como se demonstrou acima, a situação não é melhor. Embora esteja ciente de que toda a comunicação é, em certa medida, uma representação, no caso do jornalismo radiofónico há regras éticas e deontológicas que sobrelevam os princípios do teatro!…
Colaboração de Vítor Soares
sexta-feira, 27 de novembro de 2009
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
A palavra não é tudo
A palavra chegou ao centro da vida pública, e também da vida privada, por via do valor absoluto associado à liberdade de expressão. Qualquer outro tipo de comunicação não verbalizada é sempre colocada uns furos abaixo e é menos valorizada. Porque a palavra seria menos manipulatória, porque esclareceria sempre mais, porque seria a forma suprema de chegar à verdade. E, no entanto, nada disto parece colar com a realidade quotidiana.
O uso e abuso da palavra desvalorizou-a, banalizou-a, prostituiu-a, com a agravante de que somos cada vez mais incapazes de descodificar correctamente sentimentos, gestos, atitudes, ou qualquer outro tipo de expressão não verbal, por falta de treino na matéria. A palavra impôs-se como a comunicação politicamente correcta, mesmo que signifique pouco ou nada. Há que dizer sempre alguma coisa mesmo que seja uma qualquer tanga, uma qualquer banalidade, cheia de vácuo e que não resiste à análise de uma recepção mais atenta. Seguindo o pensamento de Philippe Breton, atrevo-me a proclamar que a liberdade de expressão fica coxa sem uma complementar e efectiva liberdade de recepção.
O uso e abuso da palavra desvalorizou-a, banalizou-a, prostituiu-a, com a agravante de que somos cada vez mais incapazes de descodificar correctamente sentimentos, gestos, atitudes, ou qualquer outro tipo de expressão não verbal, por falta de treino na matéria. A palavra impôs-se como a comunicação politicamente correcta, mesmo que signifique pouco ou nada. Há que dizer sempre alguma coisa mesmo que seja uma qualquer tanga, uma qualquer banalidade, cheia de vácuo e que não resiste à análise de uma recepção mais atenta. Seguindo o pensamento de Philippe Breton, atrevo-me a proclamar que a liberdade de expressão fica coxa sem uma complementar e efectiva liberdade de recepção.
Etiquetas:
comunicação,
expressão não verbal,
palavra
segunda-feira, 5 de outubro de 2009
Nas quatro estações
No outono preparo a primavera
no verão o outono
e no inverno espero
a ausência dos dias que tiveram
no outono a raiz Na
primavera quando
o ar cortado pelas folhas corre
no sangue desde os fins
de janeiro
a água do sol move-me
até ao mar inteiro
Gastão Cruz (n. 1941)
Crateras
Assírio e Alvim
Colaboração de Vítor Soares
no verão o outono
e no inverno espero
a ausência dos dias que tiveram
no outono a raiz Na
primavera quando
o ar cortado pelas folhas corre
no sangue desde os fins
de janeiro
a água do sol move-me
até ao mar inteiro
Gastão Cruz (n. 1941)
Crateras
Assírio e Alvim
Colaboração de Vítor Soares
sábado, 3 de outubro de 2009
Viver da invisibilidade
Hoje em dia, o que está a dar é viver da visibilidade. Quanto mais visível, mais se ganha. Mas, acredito, dentro de algum tempo, a saturação será tal que vai ser possível passar a viver da invisibilidade.
segunda-feira, 28 de setembro de 2009
domingo, 13 de setembro de 2009
É tudo uma questão de mostrar o corpinho
Há quem mostre mais, há quem mostre menos, há quem mostre de uma maneira ou de outra, mas vai tudo dar ao mesmo.
Para as modelos e equiparadas, o maior ou menor sucesso na vida mede-se pelo número de eventos sociais onde conseguem marcar presença e serem vistas.
Na imprensa, na rádio e na televisão, os comentideros do costume saltitam de orgão em orgão, à procura de visibilidade, num arremedo do que sucede com a mais velha profissão do mundo.
Para as modelos e equiparadas, o maior ou menor sucesso na vida mede-se pelo número de eventos sociais onde conseguem marcar presença e serem vistas.
Na imprensa, na rádio e na televisão, os comentideros do costume saltitam de orgão em orgão, à procura de visibilidade, num arremedo do que sucede com a mais velha profissão do mundo.
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