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segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Nas quatro estações

No outono preparo a primavera
no verão o outono
e no inverno espero
a ausência dos dias que tiveram
no outono a raiz Na
primavera quando
o ar cortado pelas folhas corre
no sangue desde os fins
de janeiro
a água do sol move-me
até ao mar inteiro

Gastão Cruz (n. 1941)
Crateras
Assírio e Alvim

Colaboração de Vítor Soares

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Regresso à minha cabana nos campos

1
Quando era novo serviu bem andar no mundo
Preferia sempre a montanha e os cerros
Fui por engano apanhado na época
E uns treze anos deixei longe o terreiro.
Pássaro preso lembra antigos matos
Peixe num tanque, o velho lago montesino.
Preparam cultivos em terras do Sul
Casmurro sempre regresso a estas paragens.
Este pedaço a três acres não chega
E o casinhoto, tecto de colmo, 8 ou 9 medidas.
Ulmeiro e choupo dão curva sombra às traseiras
Abrunho e pêssego se mostram 'fronte do salão maior
Perdido ao longe se esfuma um povoado
Escoam fumo os casebres,um e um.
Ladra um cão numa dessas quelhas
Os galos no cimo da 'moreira cocoricam.
A casa livre de cuidados e de poeiras
E num quarto vazio , tempo solto p'ra gastar.
A vida de homem como é presa de fantasmas?
Posso voltar a ser outra vez da Natura.

Tao Yuanming [Tao Qian] (365-427)
in Uma Antologia da Poesia Chinesa do Shijing a Lu Xun
- segundo milénio antes da era comum - século XX
(por Gil de Carvalho). Assírio e Alvim.

Colaboração de Vítor Soares

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

AH, A MÚSICA

Quem terá deixado esquecida
esta música ouvida num canto da rua!
Ninguém de quem passa nela repara
No entanto - é ela - faltava
no dia de chuva
No meu dia de chuva!
Meu seria decerto este dia
pois por mais precário que eu seja
nenhuma chuva fora podia
cair se acaso em mim não caísse
Cai chuva e há música em meu coração
Era mera ilusão o dia de chuva

RUY BELO (1933-1978)
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