...da história de vida de Viriato: "Da Cova da Beira ao Cabo das Agulhas".
A ver, aqui, em exclusivo: um parágrafo e uma foto alusiva de cada um dos capítulos do livro.
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domingo, 3 de abril de 2011
sexta-feira, 22 de maio de 2009
Angola, terra prometida

Depois de se ler este livro fica-se com a sensação de que soube a pouco. A autora pesquisou, ouviu, entrevistou, recolheu imenso material, mas não demonstrou fôlego suficiente para tratar, de uma forma aliciante, tamanha quantidade de informação.
Aparentemente, aquilo que pretendia ser mais do que uma grande reportagem acaba por tornar-se numa narrativa parca em matéria de recursos estilísticos e que promete mais do que oferece.
Colaboração de Vítor Soares
quarta-feira, 8 de abril de 2009
"Os da minha rua" de Ondjaki

Conhecia vagamente o autor, mas nunca tinha lido nada dele. E confesso que fiquei fã. Ondjaki é um jovem premiado autor angolano que expõe em 23 curtas "estórias", aqui editadas na colecção Bis da Leya, toda uma paleta do colorido em que se transforma a língua portuguesa quando é temperada com a gíria do sabor africano. Desde a introdução de novos vocábulos, para a decifração dos quais o glossário final dá uma ajuda preciosa (fugar, estigar, giboiar), até à original construção de frases: "pensei que ela não fosse me queixar" (pág. 38).
São "estórias" da infância e da adolescência do autor onde se descrevem figuras e personagens marcadas por uma saudável ingenuidade e por uma genuinidade que, cada vez mais, sabem a pouco. E, depois, há nesta prosa quase infantil uma nostalgia e, ao mesmo tempo, uma poesia carregadas de futuro. Para caracterizá-las nada melhor do que a frase que aparece escrita na penúltima página: "O teu livro dá conta de como crescem em segredo as crianças".
Colaboração de Vítor Soares
Colaboração de Vítor Soares
domingo, 11 de maio de 2008
Mestres e discípulos

Logo na Introdução, George Steiner dá o mote a uma das questões centrais do livro deixando entender que a ignorância pode conduzir a juízos categóricos. Pelo contrário, a aprendizagem só gera incertezas: "Após meio século de actividade docente em numerosos países e sistemas de ensino superior, apercebi-me da minha crescente incerteza quanto à legitimidade e às verdades fundamentais desta «profissão»." (pág. 11).
E, no entanto, este é um verdadeiro tratado de erudição que percorre, ao longo de mais de dois milénios, as lições dos Mestres em disciplinas que vão da filosofia, à literatura e à música. Ainda assim, no final, consciente das suas limitações, Steiner reconhece que "«Cobrir» todo este campo seria uma ambição absurda. As línguas necessárias, o conhecimento etnográfico, antropológico, histórico e científico de que precisaríamos ultrapassam em muito qualquer testemunha individual." (pág. 123).
George Steiner coloca-se na esteira de Sócrates que defendia "uma vida interrogativa, logo justa" (pág. 33) e para quem o verdadeiro ensino se faz por meio do exemplo não chegando, porém, ao ponto do desdém pela academia manifestado por Goethe: "Aquele que sabe, faz. Aquele que não sabe, ensina." (pág. 63). Além do mais, o exemplo parece ser algo do passado: "A admiração, para evitar falar de reverência, passou de moda. Somos viciados na inveja, na difamação, no rebaixamento." (pág. 147).
Steiner lembra-nos ainda que só os génios nos obrigam ao regresso repetido aos seus textos. As estruturas abertas, "no sentido em que possibilitam uma multiplicidade inesgotável de interpretações, mantêm o espírito humano em desequilíbrio." (pág. 37). Assim, mais do que afiançar o sim ou o não, ensinar deve estimular os porquês, com todos os perigos inerentes a tal atitude: "O grande ensino é aquele que desperta dúvidas, que encoraja a dissidência, que prepara o aluno para a partida («Agora deixa-me», ordena Zaratustra). No final, um verdadeiro Mestre deve estar só." (pág. 88). E o discípulo autêntico acabará por rejeitar o Mestre (pág. 99).
Na interacção entre Mestre e discípulo, cada vez mais, é o discípulo quem faz o Mestre e não o contrário, até porque ninguém ensina quem não quer aprender. Só aprende quem quer e só ensina quem pode. Quem aprende ajuda, decisivamente, quem ensina. De resto, na língua francesa, ensinar e aprender são, desde o século XII, sinónimos. O verbo apprendre que já era aprender torna-se, também, ensinar: apprendre quelque chose, mas também apprendre à quelqu'un. Ensinar e aprender são as duas faces de uma mesma moeda que tem servido, século após século, para pagar o tributo aos Deuses da Criação.
No entanto, se ensinar pode ser gratificante, mais importante é aprender. Sem aprendizagem a humanidade já teria desaparecido há muito. Não querendo ser mais céptico do que se manifesta o próprio Steiner, no final do livro, não deixo de me interrogar se não haverá o risco de que as tecnologias nos induzam a ideia de que não é preciso aprender. Que todo o ensino está garantido e disponível e é um dado adquirido para sempre.
Colaboração de Vítor Soares
quinta-feira, 1 de maio de 2008
Para evocar o Maio de 68

Ao invés de continuar a rebuscar as memórias vindas de França, a minha proposta vai para a leitura deste livro, acabado de sair. Partindo do caso de Coimbra, o autor analisa a dissidência política e cultural que atravessa as universidades portuguesas entre 1956 e 1974.
"Os campi universitários foram os laboratórios privilegiados para a experimentação destas novas atitudes conflituantes, que viriam a ter o seu auge simbólico no ano de 1968, em grande medida devido à contestação mediática que deflagrou em Paris durante os meses de Maio e Junho. Apesar da magnitude do impacto, os acontecimentos de «Maio de 68» não foram, porém, mais do que um abalo de superior visibilidade num território em permanente ebulição" (pág. 11).
No livro «A tradição da contestação» recusa-se o lugar comum de considerar as "crises académicas como o momento nuclear do activismo estudantil" e procura-se ir mais longe rejeitando um "tipo de história episódica" que "não facilita o entendimento do processo profundo de dissidência política, social e cultural que por estes anos atravessa o território estudantil" (pág. 203).
Miguel Cardina, que actualmente desenvolve uma tese de doutoramento sobre o desenvolvimento da esquerda radical durante o Estado Novo, lembra aqui que o radicalismo daqueles anos fez germinar uma esquerda heterodoxa que recusava a "disciplina do político" e para quem "A cólera e a festa, o colectivo e o individual, a política e a cultura, eram dois lados da mesma moeda. Em certa medida, a esquerda radical pós-moderna inscreve-se na linha de continuidade deste filão".
Colaboração de Vítor Soares
sexta-feira, 25 de abril de 2008
"Património", de Philip Roth

Tal como o anterior, este é um livro que decorre de uma experiência vivida na 1ª pessoa. E, no entanto, que diferença!...
Philip Roth nem sequer precisou de transmutar os acontecimentos verídicos em personagens fictícias para inundar o texto com uma tal densidade e uma textura ímpar capaz de suscitar o total deslumbramento perante a escrita.
A estrutura narrativa é poderosa e o rigor descritivo prende de tal forma que faz desfilar os episódios na imaginação do leitor, qual caleidoscópio arrebatador de que dificilmente nos conseguimos desviar.
Este “Património” não é apenas uma história verdadeira, à semelhança do que acontece com “O Último Ano em Luanda”. É muito mais do que isso. É uma alegoria à criação, a partir de factos reais, feita pela pena de alguém que mantém o pleno da sensibilidade numa personalidade adulta completamente formada, o que lhe permitiu interiorizar toda a memória emocional da luta do pai contra a morte e, posteriormente, reverter para o papel os mais recônditos desígnios da alma humana.
quinta-feira, 24 de abril de 2008
“O Último Ano em Luanda”, de Tiago Rebelo

Quem, induzido pelo título, vá a pensar ler uma recriação do ambiente vivido em Angola, nos anos de 1974-75, pode passar à frente das primeiras 150 páginas das 470 que tem este livro.
De resto, na parte inicial, o enquadramento que é feito na caracterização dos dois principais personagens revela pouca consistência, pelo que a leitura se torna deveras entediante.
Também não deixam de suscitar alguma dificuldade na adesão à obra imprecisões detectadas no uso da terminologia militar: NT era uma sigla usada para o plural “nossas tropas” e não para o singular “nossa tropa”, conforme é referido na página 106; ou um pelotão não tem mais de 25-30 homens e não cinquenta como se diz a páginas 176. Estas perplexidades são tanto mais evidentes para quem conheceu, por dentro, o “esforço de guerra”, facto a que o autor só pode aludir através das suas fontes visto que, conforme reconhece no final do livro, tinha apenas 11 anos em 1975.
No cenário de “acontecimentos verídicos” que o autor reivindica há um que ele próprio testemunhou quando, na noite de 14 de Julho de 1975, embarcou rumo a Lisboa e que, no livro, é descrito através da personagem de Regina para quem foram transmutados os episódios que rodearam a partida do avião em Luanda. É um bom tipo de recurso que, todavia, soa a excasso no conjunto da obra.
Na parte final do livro o enredo torna-se mais empolgante mas, ainda assim, ressente-se de uma escrita que, embora esforçada, é pouco luminosa nas imagens e a que falta a riqueza vocabular que permitiria transformar esta história numa genuína odisseia.
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